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13/10/2015 - Inchaço repentino traz desafios aos partidos

Em um cenário de flexibilização da fidelidade partidária, com facilitação à mudança de siglas, a formatação dos partidos políticos tem sido alterada de maneira dinâmica, especialmente nos contextos regionais. O redesenho contínuo das legendas, conforme professores de Ciência Política, traz consequências como instabilidade e conflito entre as lideranças na disputa pelos espaços de poder. Os cientistas políticos dizem que o pragmatismo é o principal responsável por manter no mesmo lado da trincheira (ou do partido) líderes com posições nem sempre convergentes.

 

O Partido Democrático Trabalhista (PDT) é representativo como exemplo de inchaço repentino de um partido em nível local. A legenda será morada de parcela considerável do grupo aliado aos irmãos Cid e Ciro Gomes. O grêmio pedetista já ganhou adesão de pelo menos 43 prefeitos, número que ainda deve crescer. O ex-ministro Ciro Gomes também já se filiou oficialmente à sigla, enquanto Cid deve migrar nos próximos dias.


 Em eventos do partido, lideranças do PDT dão como certa a indicação de Ciro Gomes como candidato à Presidência da República em 2018. O ex-ministro repassa o elogio ao irmão Cid Gomes. O próprio dirigente nacional da agremiação, Carlos Lupi, reforça que a sigla deve elaborar um projeto nacional para o País. O presidente do partido também não enxerga nenhuma contradição no fato de a sigla compor o primeiro escalão da presidente Dilma Rousseff e anunciar, três anos antes da eleição, o desejo de disputar o cargo que hoje é ocupado pela petista.

 

Outro episódio que aumentou a musculatura do partido no Ceará é a recente nomeação do presidente estadual do PDT, o deputado federal André Figueiredo, no Ministério das Comunicações. Em poucas semanas, o PDT cearense ampliou sua representação política no Estado. Esse fenômeno, segundo especialistas em Ciência Política, também pode expor os partidos a instabilidades locais. 

"Esse inchaço sempre chega com um aval da executiva nacional para agir localmente, isso vai enciumar pequenas lideranças locais, trazer desconforto político e ideológico. Prova disso é a saída de um pedetista histórico, como o Heitor Férrer", opina o cientista político Sérgio Néry. 

Lideranças

 O docente diz não acreditar, entretanto, em uma perda imediata de poder de lideranças pedetistas locais, como o ministro André Figueiredo. "A tendência é que interesses dos aliados dos Ferreira Gomes vão prevalecer, mas não creio exatamente no esvaziamento do André Figueiredo em razão de que ele também possui mandato, tem bom trânsito com a situação, com o plano nacional e, se souber entender que o PDT dá mais atenção a esses projetos dos Ferreira Gomes, poderá ser um coadjuvante importante", aponta.

 

Sérgio Néry destaca que, com a entrada dos liderados dos Ferreira Gomes, o projeto do PDT agora passa a girar em torno das ambições do grupo, objetivo que tem como ápice a eventual candidatura à Presidência em 2018. "O André Figueiredo ganha musculatura nesse plano e pode eventualmente ser inserido se a harmonia entre ele e os Ferreira Gomes for boa, se estiverem no mesmo ritmo político. É possível que possa ser bem aproveitado do ponto de vista do projeto dos Ferreira Gomes", declara.

Para Sérgio Néry, o inchaço repentino de um partido, como o fenômeno do PDT no Ceará, traz certa insegurança. "No momento em que se recebem esses grupos e, especificamente, grupos que se sabe que pouco permanecem a um partido ou ideologia, se sabe que isso é um inchaço momentâneo. A direção nacional julgou que era o momento de crescimento, mas pouco sustentável do ponto de vista da fidelidade. Colocaram nessa conta a possibilidade de possível debandada desse grupo", expõe.

Enfraquecer

Sérgio Néry cita como exemplo o papel do PSB nos últimos anos. "No plano estadual, a gente percebe o que aconteceu com o PSB. Nacionalmente, ele tentou alçar um grande voo e, com a morte repentina do Eduardo Campos, isso tirou força política do partido. No plano nordestino foi um crescimento demasiado (com a entrada dos Ferreira Gomes), mas a debandada, quando é feita em grupo, é complicada. Essas saídas sempre tendem a enfraquecer muito", avalia.

O cientista político Marcos Colares explica que o grupo ligado aos Ferreira Gomes tem histórico de repetir um discurso com ideologia de esquerda e viés socialista, mas que nem sempre se sustenta na prática. "As escolhas têm sempre sido de partidos populares e socialistas, mas a trajetória dos Ferreira Gomes não é democrática, mas sim de participação em grupos como forma de exilar antigos dirigentes já consolidados em outros partidos".

A entrada do grupo dos Ferreira Gomes no PDT, salienta Colares, é um dos sintomas de mudança na linha programática do partido nos últimos anos. "O PDT é um partido que tem sofrido oscilações muito grandes depois da morte do (Leonel) Brizola. O PDT não tem demonstrado sua relação com o socialista como era na época do Brizola. O PDT tornou-se um partido pragmático. A recepção aos Ferreira Gomes casa com a nova feição que o partido vem tendo nos últimos 15 anos", ressalta.

Fonte: Diário do Nordeste

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