Análises

04/12/2013 - Jornalista ?rico Firmo comenta a crise de valores que está na raiz da violência

Coluna  POLÍTICA (jornal O POVO)


A informação causou espanto pelo mundo. Na última segunda-feira, pela primeira vez na história, um homem morreu em função de intervenção da Polícia na Islândia. É inacreditável e fora de qualquer padrão internacional. Até então, não houvera mortes em tiroteios, tentativas de evitar assaltos, nada. Ao ler essa notícia, impossível não lembrar dos recentes números do Anuário da Segurança Pública, segundo os quais morrem pelo menos cinco pessoas por dia no Brasil em decorrência da ação de policiais. Nem é o caso de se comparar com a Islândia, país minúsculo, com pouco mais de 300 mil habitantes e uma das menores taxas de criminalidade do mundo. A questão é que, observados os extremos, o modelo brasileiro de Polícia e de concepção de intervenção na segurança não pode estar certo. Vale registrar que, para efeito de comparação mais realista, a Polícia brasileira mata mais de quatro vezes mais que a dos Estados Unidos, onde a população é bem maior.

Reflexo da guerra urbana que é sentido também pelos policiais: a chance de eles serem assassinados é o triplo da observada para o resto da população. A maior parte das mortes ocorrem fora de serviço. Trata-se de conflito no qual se mata e se morre demais. Costuma-se apontar como causa da violência as desigualdades de renda. Isso não é de todo verdade. Há países mais desiguais que o Brasil que são mais seguros. Uma hipótese que levanto é de que o fator determinante para a criminalidade é a tensão social – que tem nas disparidades sociais, efetivamente, uma das principais causas, mas não a única e eventualmente nem mesmo a principal.No caso brasileiro, o modelo policial é produtor de tensão, ao invés de ser propagador da paz. Dessa maneira, é instrumento da violência, não da segurança. A culpa não é dos policiais. Como os números mostram, são também vítimas dessa guerra urbana. O problema é estrutural, da forma equivocada como as corporações foram concebidas há mais de século.OS LEITORES E O ENSINO MÉDIO

Na semana passada, dediquei três colunas ao debate da crise do ensino médio. A esse respeito, destaco duas das contribuições que leitores enviaram. Uma delas de Edson Pessoa. Ele é professor universitário e considera que o Enem potencializa o desnível entre as regiões. “Quando examino a lista de classificação das escolas no Enem, sinto pena dos estudantes do Ceará. Estes ganharam um concorrente nacional mais preparado (Sul e Centro-Sul)”. Ele aponta que, com o Sisu, os estudantes têm desvantagem ainda mais exposta em relação às regiões mais ricas e com melhor desempenho educacional – Sul, Sudeste e Centro-Oeste. “Com maior renda, não se constitui sacrifício para as famílias daquelas regiões manterem um filho estudando no Ceará. Já o contrário... Não é fácil manter no Rio de Janeiro ou em São Paulo um cearense que lá tenha encontrado vaga para se matricular”.
Edson Pessoa ainda chama atenção para aspecto bastante interessante. Só na semana passada foram divulgadas as notas das escolas sobre o Enem de 2012. Essa demora tem sido praxe. Com o adendo de que foram vários os erros na divulgação. “Como pode o Inep passar um ano para liberar as estatísticas do exame do ano passado? Em plena era da tecnologia da informação?” Realmente, difícil entender.

A AUTORIDADE DO PROFESSOR

Outra contribuição foi de um professor da rede pública em Caucaia, que prefere não se identificar. Ele relata o drama do cotidiano em sala de aula. “Já dei aula em escola particular e posso te dizer que (na escola pública) o material educacional é bom, os professores são bons e dedicados, a estrutura predial é boa, mas a disciplina é zero. O professor tem medo de mandar um aluno indisciplinado pra fora da sala e ele simplesmente se recusar a sair. O que acontece? Nada, o aluno permanece em sala, a direção também nada pode fazer, o professor fica totalmente desmoralizado. Pode ter certeza de que hoje a falta de moral do professor desmotiva mais do que o salário baixo que recebemos”. Ele menciona salas pichadas com ofensas, estudantes que saem e entram a qualquer hora e mesmo material que é danificado na frente do docente. “Por que o professor não faz nada? E eu sou louco de fazer alguma coisa contra um aluno que diz claramente que já matou fulano de tal, que o pai assim que sair da cadeia vai matar não sei quem?”.

E relata o efeito dessa realidade: “Enquanto na escola particular 90% do tempo de aula de 50 minutos é aproveitado com conteúdo e 10% com um bate-papo trivial entre mestre e alunos, na escola pública, 10% da aula é conteúdo e os outros 90% é: ‘Menino, não bate no outro’, ‘não xingue a menina’, ‘solta essa carteira’, ‘baixa o volume do celular’, ‘não pode atender celular’, ‘não rasgue o livro’, ‘não arraste a carteira assim senão os colegas não me ouvem’ etc...”De minha parte, entendo a educação mais como construção coletiva que como imposição de autoridade – de disciplina ou conhecimento. Entendo que as experiências mais exitosas são aquelas que partem do saber dos próprios estudantes. Claro que a situação relatada é problemática e expõe um processo educacional fracassado. Não pode ser assim. Mas, parece-me à distância, a inexistência de disciplina é sintoma de uma crise maior, de um processo educacional falido dentro da instituição.

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